Para mulheres com história de cancro da mama

A menopausa caracteriza-se pela cessação da produção de estrogénios pelos ovários e define-se como a interrupção dos ciclos menstruais durante, pelo menos, um ano consecutivo. Em média, este período ocorre por volta dos 51 anos de idade. Antes da menopausa, dá-se uma fase de transição – a perimenopausa – em que os ciclos menstruais se tornam irregulares, com alterações na duração e ausência progressiva de ovulação.

No caso de mulheres que foram tratadas por cancro da mama, podem surgir alterações menstruais mais cedo, como consequência dos tratamentos.

O tamoxifeno, utilizado em mulheres pré-menopáusicas, pode provocar a suspensão das menstruações e provocar afrontamentos. No entanto, isso não significa que se tenha entrado na menopausa — é uma consequência do efeito do tamoxifeno sobre o hipotálamo e a regulação hormonal. A contracepção (geralmente com DIU de cobre) deve ser mantida até que a menopausa seja confirmada. Para os afrontamentos, existem tratamentos não hormonais (ver mais abaixo), bem como técnicas não farmacológicas como ioga, acupunctura, sofrologia… A atividade física regular também pode ajudar.

O tratamento com análogos da GnRH, frequentemente combinado com inibidores da aromatase, pode induzir uma menopausa química, reversível, mas frequentemente associada a sintomas climatéricos intensos. Existem tratamentos de apoio, que serão detalhados mais adiante.

A quimioterapia para o cancro da mama não está fortemente associada a um risco elevado de menopausa precoce. Na maioria dos casos, os ciclos menstruais reaparecem até um ano após o fim do tratamento.

Tratamentos para os sintomas da menopausa

O tratamento hormonal de substituição (THS) está contraindicado em mulheres com história de cancro da mama. Contudo, há alternativas eficazes:

Os mais eficazes são os inibidores da recaptação da serotonina e da noradrenalina, como:

  • Venlafaxina, Paroxetina, Fluoxetina, Duloxetina, Citalopram.
    Outros medicamentos como Gabapentina e Pregabalina também são utilizados.

Estes fármacos podem causar efeitos secundários, como sonolência ou perturbações digestivas, e o seu efeito pleno pode demorar 2 a 3 meses a manifestar-se. A dose deve ser aumentada gradualmente para melhorar a tolerância. Importa referir que alguns destes medicamentos (paroxetina, fluoxetina, duloxetina) são contraindicados em combinação com tamoxifeno.

Um novo tratamento não hormonal para os sintomas vasomotores — um antagonista do receptor da neuroquinina 3 — está a chegar ao mercado. Chama-se Fezolinetant, aprovado pela Agência Europeia do Medicamento, embora ainda não esteja disponível em Portugal. Atua sobre os afrontamentos e distúrbios do sono e não interfere com o tratamento oncológico.

Alternativas não farmacológicas

Técnicas como ioga e hipnose demonstraram eficácia superior ao placebo em estudos clínicos. Outras práticas como acupunctura, meditação ou mindfulness também podem ser úteis em alguns casos.

Tratamentos para sintomas genito-urinários

Para secura vaginal, dificuldades sexuais e problemas urinários associados à menopausa, os tratamentos sistémicos não são eficazes. Nesses casos, existem:

  • Produtos de aplicação local, como géis com ácido hialurónico, dilatadores vaginais e lubrificantes.
  • Se estes não forem suficientes, podem ser usados estrogénios tópicos (locais), que são seguros em mulheres a fazer tamoxifeno.
  • Para mulheres com inibidores da aromatase, deve ser feita avaliação médica individualizada.

Outras opções incluem medicamentos como ospemifeno ou prasterona, bem como tratamentos físicos como laser e radiofrequência.

Em caso de incontinência urinária, a fisioterapia pélvica e os tratamentos locais podem ser eficazes. Para situações de urgência urinária, existem medicamentos específicos. Consulte sempre o seu médico.

Estilo de vida: um aliado no controlo dos sintomas

Adoptar um estilo de vida saudável pode reduzir os sintomas da menopausa e melhorar o prognóstico oncológico:

  • Exercício físico: 300 minutos por semana.
  • Cálcio: 800 mg a 1 g por dia.
  • Alimentação equilibrada: reduzir gorduras (enchidos, queijos, fritos), hidratos de carbono simples, e aumentar a ingestão de proteínas.
  • Manter o peso adequado (IMC < 25). Em caso de aumento de peso, recomenda-se aconselhamento nutricional e, se possível, aumentar a atividade física.

Osteoporose

Os inibidores da aromatase aumentam o risco de osteoporose. É necessário:

  • Avaliar a densidade óssea no início do tratamento e reavaliar conforme o resultado.
  • Exercício com carga para prevenir perda óssea.
  • Aumentar a ingestão de cálcio e normalizar os níveis de vitamina D.

O tabaco e o álcool são fatores de risco para a osteoporose, fraturas e cancro da mama (entre outros). A cessação é recomendada e pode ser facilitada com apoio especializado.

Avaliação do risco cardiovascular

É importante avaliar o risco cardiovascular das mulheres com história de cancro da mama e adoptar estratégias para prevenir doenças cardiovasculares.

E se tiver tido outros tipos de cancro?

  • Cancro do endométrio: as terapias hormonais estão geralmente contraindicadas, salvo exceções em casos muito localizados. Aplicam-se as mesmas alternativas descritas acima.
  • Cancro do ovário: em certos casos (mulheres jovens, tipos histológicos específicos), pode ser possível usar terapia hormonal. Fale com o seu oncologista.
  • Cancro do colo do útero, tipo epidermóide: não há contraindicação ao tratamento hormonal, e este pode ser recomendado se a menopausa ocorrer antes dos 51 anos.
  • Cancro do colo do útero (cérvix): o tratamento hormonal parece até reduzir o risco deste cancro.

Outros tipos de cancro: não existe contraindicação para a terapia hormonal da menopausa.

Dra. Anne Gompel
Ginecologia Médica e Endocrinologia

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